Perfumes árabes ganham espaço e revelam novas formas de experimentar o luxo

Durante muito tempo, falar em perfume de luxo significava pensar principalmente nas grandes maisons francesas e em suas criações clássicas. Nos últimos anos, porém, a perfumaria árabe tem conquistado espaço no mercado internacional e despertado a curiosidade de consumidores em busca de fragrâncias mais intensas, matérias-primas marcantes e experiências olfativas diferentes das convencionais.

Trata-se do encontro do mercado contemporâneo com uma tradição que tem na perfumaria uma dimensão cultural. Ingredientes como mirra, almíscar, olíbano, oud, sândalo, aloe vera, açafrão, rosa, âmbar e jasmim ocupam lugar importante nesse repertório e aparecem em composições que podem ser muito diferentes daquelas às quais o consumidor ocidental está acostumado.

“O perfume, em muitas culturas do Oriente Médio, está muito mais integrado ao cotidiano e aos rituais. Existe uma relação muito forte com a matéria-prima, a forma de aplicação e a maneira como a fragrância evolui”, explica João Pessoa, executivo que está à frente da marca ‘Iylian Produtos Artesanais e tem mais de duas décadas de experiência profissional em projetos no Oriente Médio.

O que este artigo aborda:

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Fonte da imagem: Unsplash

Extrait: concentração não é apenas intensidade

Entre os formatos que começam a chamar a atenção do consumidor brasileiro estão os chamados extraits de parfum. A denominação está relacionada à concentração de matérias aromáticas na fórmula (geralmente entre 20 e 40% de compostos aromáticos). Na prática, um extrait pode apresentar uma evolução mais lenta e profunda sobre a pele. A fragrância tende a permanecer por mais tempo e a revelar suas diferentes facetas gradualmente, em vez de simplesmente produzir um impacto olfativo mais intenso no primeiro momento.

“Existe uma diferença importante entre uma fragrância que projeta muito e uma fragrância que permanece e vai se transformando na pele. O extrait está muito ligado a essa segunda experiência”, observa João.

Tal característica ajuda a explicar por que eles ocupam espaço importante na perfumaria de luxo. Em algumas casas, inclusive, o extrait não é apenas uma versão concentrada de uma fragrância já existente. A composição pode ser reequilibrada para explorar outras características das matérias-primas e produzir uma experiência olfativa própria.

O ritual dos attars

Outra porta de entrada para a tradição oriental são os attars, perfumes concentrados em óleo, tradicionalmente sem álcool, elaborados a partir de essências aromáticas e aplicados diretamente sobre a pele. Diferentemente do perfume em spray, usado de maneira mais ampla sobre pele e roupas, o attar costuma ser colocado em pequenas quantidades diretamente sobre pontos específicos do corpo.

Essa tradição dos óleos perfumados está associada a diferentes culturas do Oriente Médio e da Ásia, e envolve matérias-primas como flores, madeiras, resinas e especiarias. O resultado costuma ser uma fragrância mais próxima da pele e cuja evolução depende também da interação com a temperatura e a química individual de cada pessoa.

A diferença não está apenas na fórmula, mas também no ritual. “O attar propõe uma relação muito mais próxima com a pele. Você não está simplesmente borrifando uma fragrância; existe uma aplicação mais precisa e isso muda a maneira como você percebe o perfume”, explica o executivo da ‘Iylian.

Oud (agarwood): a matéria-prima que virou símbolo de luxo

Poucos ingredientes representam tão bem esse universo quanto o oud, também conhecido como agarwood. Resina aromática rara formada no interior de certas árvores do gênero Aquilaria, nativa de países como Índia, Camboja, Vietnã e Indonésia, o oud atravessou diferentes culturas asiáticas, tendo chegado ao mundo árabe por antigas rotas comerciais. Na perfumaria do Oriente Médio, tornou-se uma matéria-prima de enorme importância cultural e olfativa.

Seu perfil é complexo, profundo e marcante, podendo apresentar facetas amadeiradas, resinosas, terrosas e até animais. A matéria-prima natural também é associada ao universo do luxo por sua raridade e pelo alto valor de determinados tipos de óleo de oud. Como ressalta João, o oud está para a perfumaria como o ouro e as pedras preciosas estão para a joalheria: raro, precioso e valorizado pela origem, qualidade e escassez. Por isso, frequentemente é chamado de “ouro líquido’’.

Um novo olhar sobre o luxo

A chegada de mais opções de perfumaria árabe ao Brasil acontece em um momento em que o conceito de luxo também vem mudando. Para uma parcela dos consumidores, exclusividade já não está necessariamente relacionada apenas ao nome estampado no frasco. Está também naquilo que você coloca dentro dele, na história daquela matéria-prima e na experiência que ela proporciona.

Nesse contexto, os extraits e attars apresentam uma alternativa à lógica do perfume como produto de consumo rápido. São fragrâncias que convidam o consumidor a prestar atenção à concentração e à própria evolução do aroma.

Para o mercado brasileiro, a expansão desse universo representa também uma oportunidade de ampliar o repertório olfativo. Em vez de substituir a perfumaria ocidental, as criações árabes acrescentam outras referências, outros ingredientes e, principalmente, outra maneira de entender a relação entre perfume, identidade e cultura.

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